segunda-feira, 22 de maio de 2017



TRABALHO E ÓCIO EM PATERSON, DE JIM JARMUSCH

Em Paterson, Jim Jarmusch mostra a vida de um poeta. Como todos sabemos, poeta não é profissão. Paterson (o personagem) exerce o trabalho de motorista de ônibus: escreve nos intervalos, na hora do almoço, nos momentos de ócio.
  
    Nesses momentos de criação - em meio ao cotidiano de trabalho - ele burila as imagens de seus poemas, pensa nos aspectos plásticos e sonoros de cada um deles. Escreve sobre as pessoas que vê na rua, a convivência com a namorada, a marca preferida de fósforos que são usados em casa.

   O filme, estruturado em forma de diário (uma semana na vida de Paterson), simplesmente passeia pelos acontecimentos de uma “vida normal”, segundo o ponto quase minimalista do protagonista, que não possui telefone celular nem usa internet. Paterson não sofre demasiadamente, tampouco se mostra eufórico. Seu modo de vida é o mais simples possível. O filme mostra a sequência repetitiva dos dias de um poeta proletário. Seu cotidiano é monótono, como o de qualquer trabalhador.

Talvez por ser poeta, Paterson parece suportar razoavelmente o emprego cansativo. Observa do alto de um ônibus a cidade com a qual parece se misturar (o que inclui seus próprios nomes) e almoça a marmita preparada pela esposa, que não trabalha (melhor seria dizer: não tem um emprego).  À noite, ele leva o cão para um passeio. Senta no balcão de um bar e toma cerveja comedidamente, enquanto observa os pequenos dramas dos seres noturnos das redondezas.

    No dia seguinte, Paterson ouve a conversa de uma dupla de jovens que adentrou o ônibus. Eles se perguntam se ainda existiriam anarquistas em Paterson (a cidade). O poeta ouve aquilo e seus olhos melancólicos dizem algo: os ideais coletivos se perderam, as pessoas se agitam e cultivam neuroses para fugir da terrível existência "sem saída". Ele, pelo contrário, não almeja muita coisa: vai seguindo.

Sua vida exterior é um tanto previsível, mas o refúgio na poesia e no amor da mulher é o presente possível. Paterson cria, dentro de si, um refúgio que alimenta diariamente, sem descanso. Mesmo acordando às seis da manhã e dirigindo um ônibus barulhento todos os dias. Seu caderno de poemas é destroçado pelo cão. Paterson se abala, sua cabeça vivia dentro daqueles poemas (que não parava de burilar nas horas vagas). Ganha um caderno novo, de um viajante desconhecido. Um novo ciclo se inicia, uma nova semana também.

    Parte  da beleza de Paterson (o filme e o personagem) vem desse diálogo entre o interior e o exterior. A casa e a cidade, a visão do poeta e o objeto do poema. Jarmusch parece querer que respiremos no ritmo do personagem, que possibilita os recortes daqueles pequenos encontros. Ele quase não fala, seu mundo lúdico é um refúgio interior a ser reconstruído sem descanso. Ela fala o tempo todo e cria sem parar: novas comidas e pinturas, aprender violão e se tornar cantora de folk. Inventa doces que irá vender na feira do fim-de-semana. 

  Ela parece cultivar o chamado "ócio criativo", sem ansiedade ou culpa.  O que parecia futilidade e ilusão surge como gozo constante da vida, apesar das limitações e dificuldades financeiras. O contraste entre os dois se torna cada vez mais palpável. 

Paterson é quieto, melancólico e não pensa muito no futuro. Ela implora para que ele publique seus poemas, mas o poeta continua indiferente. A mulher resolve fazer uma cópia do caderno, mas o cão -  um tanto sadicamente - destrói tudo antes disso.   

   Podemos pensar que ele vive “na realidade”, enquanto ela aparentemente flutua na ilusão e vaga em delirantes projeções imaginárias. Com sua voz desafinada, o sonho de se tornar cantora de música folk parece o ápice dessa perda de contato com o “real”. Ao mesmo tempo, podemos pensar o oposto: ela não tem sua poesia interrompida pelo supervisor da empresa. Vive imersa na descoberta, como uma criança. Tudo é fascinação. Ela faz coisas “reais” (no sentido da concretude), pinta, aprende violão, inventa novos pratos, etc. Ele vê os dias da semana passarem, as horas voando no relógio de pulso. Sua única “produção” (real?) são os poemas que  escreve no caderno a ser destroçado pelo cão.

   Precisei ver o filme duas vezes. Na primeira sessão simplesmente não alcancei o ritmo lento que o filme exige, dormi em vários trechos (devo ter tido um dia trabalhoso).
  



terça-feira, 26 de abril de 2016


BRUNO MINHA VIDA

Bruno Minha Vida
assim era a tatuagem
nas costas da menina
sem vírgula
sem ponto
com seu bebê no colo
Bruno Minha Vida

Vida
Minha
Bruno


Minha
Bruno
Vida

segunda-feira, 25 de abril de 2016


NA PRAIA DA MINHA INFÂNCIA

Em Niterói tive uma ressaca terrível, via um barquinho com dois pescadores no meio do mar, sem pai nem mãe: parecia um barquinho de papel no meio de uma baía com revoltas explosivas. Marés profundas geravam monstros líquidos nunca antes vistos, as ondas cuspiam e amontoavam no fiapo que restava da areia os lixos acumulados, as dores regurgitadas: sapatilhas de criança, bonecas rotas, moedas fora de circulação, muitos objetos indefinidos esculpidos pela corrosão do sal e das maresias. Pude sentir que o inconsciente arrasado da civilização vinha à tona, estatelado na areia.

Quero fazer parte daquilo, daquela perturbação incrível que a natureza surpreendentemente proporciona. Resolvo entrar pelo lado direito, onde há mais pedras, algas, ouriços. Ondas se entrechocam e me levam ao fundo, pedras batem nos meus joelhos e algo corta o meu pé esquerdo. Ele me diz desesperado e com uma dor aguda que saísse imediatamente, que voltasse à casa da Mãe, onde há café com leite quente e pão com manteiga.
 

segunda-feira, 23 de junho de 2014


28
Voltar a escrever na areia da praia as cartas ao presente. É preciso desistir da glória, com grande fervor - é preciso recuperar o escândalo, o berro no meio do caos de espuma e corpos rolando à mercê do movimento caótico das marés mais fundas a inventar essa efêmera flor d'água mutante: a onda abruptamente erguendo-se, explodindo sobre si mesma.



segunda-feira, 16 de junho de 2014


ENTRE O SONHO E O MAR

25 
Eis o cara que fica aqui fora, que anda por aí sozinho, que ainda espera que você saia de sua bolha, de suas panelas confortáveis - ainda espera que você interrompa bruscamente suas conversas de sempre e depois diga algo que seja, que me desloque para...

Colecionador de frases feitas, caras pálidas e olhos insones, o sujeito se manda e mergulha na praia de areias mornas, de água gelada com restos de algas e águas vivas.

O ministério da saúde o advertiu: trabalho demais faz mal à saúde, trabalhar não permite que se observe o brilho fugidio dos grãos de areia molhados pela água do mar refletindo as cores mutantes do céu de outono.

Cada vez mais convencido de que nos sonhos vem o delírio humano mais puro, a poesia mais aterradora - como a comunicação indireta entre um ser e outro, em um átimo de segundo, um olhar desnudo sem barreiras alfandegárias, sem revistas obrigatórias.


terça-feira, 10 de junho de 2014


O SUJEITO EMERGE DA ANESTESIA


22

Acordo, a água gelada na cara, um tapa nos olhos, descongelar a visão, devolver a mim mesmo o olhar que deixei fugir.

Rivotriste é um nome adequado: ele tira teu sorriso por vinte e quatro horas, tudo vai ficando sem ondas, sem cor, sem tempo ruim, sem tempo nem cabeça de pensar.

Emoção alguma irá te afetar de modo algum durante um bom tempo - essa também pode ser  a função da masturbação: criar uma geléia amorfa de sexo virtual em sua mente com memórias demais. Encha essa cabeça com notícias do livrinho azul.

terça-feira, 3 de junho de 2014

MADRUGADA

14
Agora é o fluxo, me convenço. Deixar os sensores ligados, as pistas que se desdobram. Sonho de infância, insetos verdes na caixinha, crianças más que adestram insetos cheios de protuberâncias no corpo, cada vez mais treinados para fazer o mal. Penso em abrir a caixinha, abrir o chamado livro de caras, ver se a luz verde dela anda acesa,  contar do pesadelo na madrugada, correr o risco de bancar o maluco perturbado, perturbador.

O menininho tinha medo de formigas, tinha pavor, berrava muito, fingíamos que tínhamos formigas entre os dedos, jogávamos formigas imaginárias dentro da camisa do menino, ele tinha certeza que as formigas picavam sua pele branca e vermelha